Campanha da Fraternidade 2024 Fraternidade e amizade social para curar uma sociedade adoecida

Ao completar 60 anos em âmbito nacional, a Campanha da Fraternidade faz um diagnóstico da nossa sociedade enferma e, à luz da Palavra de Deus e do magistério eclesial, constata que sofremos de grave “alterofobia”, causada por um “hiperindividualismo”. Para o tratamento, o papa Francisco já nos indicou o remédio: “fraternidade e amizade social”. O presente artigo é um guia de leitura para o Texto-base da CF-2024.

Introdução

Em 2024, quando completa 60 anos em âmbito nacional (1964-2024), a Campanha da Fraternidade (CF) – inspirada na Carta Encíclica Fratelli Tutti, do papa Francisco, publicada em 3 de outubro de 2020 – traz como tema “Fraternidade e amizade social” e como lema “Vós sois todos irmãos e irmãs” (Mt 23,8).

Neste ano, a CF se empenha em fazer um diagnóstico da enfermidade que nossa sociedade atual sofre, com base nos sintomas que experimentamos cotidianamente no nosso convívio social e na literatura bíblica e do magistério sobre o assunto, para, enfim, oferecer ou reoferecer o remédio indicado pelo papa Francisco ao mundo hodierno.

A Campanha da Fraternidade é o modo brasileiro de celebrar a Quaresma. Ela não esgota a Quaresma. Dá-lhe, porém, o tom, mostrando, a partir de uma situação bem específica, o que o pecado pode fazer quando não o enfrentamos. Por isso, a cada ano, recebemos um convite para viver a Quaresma à luz da Campanha da Fraternidade e viver a Campanha da Fraternidade em espírito de conversão pessoal, comunitária e social (Texto-base da CF-2023, Apresentação).

Partimos de um princípio muito basilar e seguro, expresso no lema desta CF: somos todos irmãos e irmãs, possuímos a mesma dignidade, que nos dá uma igualdade fundamental, uma vez que, “dotados de alma racional e criados à imagem de Deus, todos temos a mesma natureza e origem; e, remidos por Cristo, todos temos a mesma vocação e destino” (GS 29).

No entanto, move-nos a consciência de que estamos socialmente enfermos e é nossa missão ver, compadecer e cuidar (CF-2020). Por isso, a CF-2024 quer acompanhar nossa sociedade ao médico para que, com base nos sintomas que apresentamos, seja diagnosticada e medicada nossa doença mediante um processo de verdadeira conversão pessoal, comunitária e social.

1. Os sintomas

Em toda consulta, começamos a conversa apresentando ao médico os sintomas que identificamos em nós mesmos e que nos levaram a procurá-lo.

Nossa adoecida sociedade apresenta inúmeros sintomas:

  • Estamos transformando o diferente, o divergente e o oponente em inimigos para podermos dar azo ao nosso desejo de eliminá-los;
  • Impera entre nós a intolerância;
  • Nas redes sociais, temos divulgado mensagens discriminatórias e intolerantes e praticado o cancelamento;
  • Na vida real (não digital), aumenta a violência, o ódio, o homicídio e as guerras;
  • O diálogo é cada vez mais raro e escasso;
  • As famílias se dividiram, romperam relações por razões ideológicas;
  • As comunidades estão em conflito, defendendo opostos em nome do mesmo Evangelho;
  • O rancor, a inimizade, o afastamento das pessoas crescem vertiginosamente;
  • Por razões etnorraciais, pratica-se o racismo;
  • Por razões sociais, a aporofobia;
  • Por razões sexuais, o feminicídio e a eliminação das pessoas que vivem uma orientação sexual diversa da nossa;
  • Por motivos políticos, abandona-se o bem comum (do todo) e prioriza-se a parte, minha parte, a parte com a qual me identifico sem consciência crítica;
  • Por motivos religiosos, difama-se, persegue-se, calunia-se, destrói-se, mata-se;
  • Os interesses valem mais que os valores;
  • O outro se tornou mercadoria;
  • Julgamentos precipitados, rejeição gratuita, ódio desmedido, combate a pessoas por causa de suas ideias e propostas e banalização da morte tornam-se corriqueiros;
  • Falta compromisso com a verdade, em nome de interesses individuais ou de grupo (fake news);
  • Creches e escolas são atacadas por pessoas armadas;
  • A violência é normalizada, como a posse de armas e o incentivo ao armamento;
  • Além de assédio moral e sexual, constata-se aberta defesa do aborto, devastação ambiental, bullying, intolerância religiosa, tráfico de drogas, tráfico de pessoas, apologia ao armamentismo, situações análogas ao trabalho escravo, discurso de ódio, corrupção e fome;
  • Há uma “globalização da indiferença” (EG 54);
  • Há uma crise de pertencimento que gera o fenômeno do identitarismo;
  • Nossa sociedade está dividida, é desigual e excludente.

2. As causas e o diagnóstico

O que nos tem levado a esse tipo de comportamento são a destruição da coletividade e a construção do indivíduo solitário e autossuficiente – ou, como diz o papa Francisco, autorreferencial –; a construção de um inimigo comum, como o único elemento aglutinador, na sociedade, capaz de retirar as pessoas do seu subjetivismo individualista; a mentalidade de que o conflito e a guerra são geradores de vida e desenvolvimento; a ideologia da invisibilização da inimizade social e a normalização da competição e da meritocracia, dando assim permissão para eliminar o outro.

O triste diagnóstico que fazemos é que nós, na nossa sociedade atual, sofremos de grave alterofobia, ou seja, medo, rejeição e aversão a tudo aquilo que é outro, tudo o que não sou eu mesmo.

A palavra é estranha, mas a situação que ela indica é real, presente e incisiva dia após dia, alimentando mentalidades e gerando atitudes. A outra pessoa, a outra causa, o outro sonho, o outro esforço, tudo, enfim, que não seja eu mesmo acaba por se tornar desnecessário, ameaçador, destinado à rejeição e até mesmo à eliminação e extinção.

Resumindo, sofremos de alterofobia, causada pelo hiperindividualismo. Esse é o diagnóstico. É isso que precisamos atacar.

Sofremos de um agudo processo de subjetivação, isto é, a única ótica que importa é a minha. Rejeitamos tudo que é diferente de nós mesmos porque deixamos crescer demasiadamente, num processo de inchaço, nosso próprio eu, desencadeando, assim, um processo de fechamento ao outro. Não há dúvidas de quanto é positiva a individualidade; isso não se põe em pauta. No entanto, aquilo que conquistamos como um grande valor passou a ser como um dos nossos maiores limites. Vivemos fisicamente próximos, mas absolutamente distantes, num império das individualidades, e aquilo que é comum parece ter caído em desuso.

A questão é tão grave, que o papa Francisco já alertou: “Neste mundo que corre sem um rumo comum, respira-se uma atmosfera em que a distância entre a obsessão pelo próprio bem-estar e a felicidade da humanidade partilhada parece aumentar: até fazer pensar que entre o indivíduo e a comunidade humana já esteja em curso um cisma” (FT 31).

3. Há, porém, esperança!

Embora esteja indubitavelmente adoecida, nossa sociedade apresenta sinais de esperança. Nem tudo está perdido. Há pessoas e organizações verdadeiramente empenhadas na construção de um mundo fraterno e em iniciativas de amizade social que gerem vida, e vida em abundância:

  • Na nossa própria natureza, gerada no amor da Trindade, está inscrito o ímpeto de comunhão, de fraternidade, de diálogo e amizade social;
  • O grande desenvolvimento das tecnologias da comunicação nos possibilita enormes possibilidades de diálogo e conexão;
  • Nosso povo cultiva permanente disposição à solidariedade, especialmente nas grandes tragédias;
  • A sadia e complementar pluralidade existente entre todos os seres humanos, imagem e semelhança do Criador, é para a comunhão, e não para a divisão;
  • Os movimentos sociais e as organizações comunitárias, com suas lutas pelo bem comum, são uma proclamação de esperança;
  • Também o é a vida cotidiana das nossas comunidades eclesiais verdadeiramente comprometidas com o Evangelho da libertação integral do ser humano;
  • Por fim, mas sem esgotar, o Pacto Educativo Global, a Economia de Francisco e Clara e o Sínodo sobre a sinodalidade e seu amplo processo de escuta das bases são sinais eloquentes de esperança.

4. A consulta à literatura referencial

Todo médico, ao ouvir os sintomas do paciente, consulta mentalmente todo o arcabouço teórico construído ao longo da sua formação. Assim também nós, neste diagnóstico da sociedade atual, recorremos à vasta literatura bíblica, capaz de iluminar a realidade, para chegarmos a nossas conclusões.

Partimos do fratricídio original, na narrativa de Caim e Abel (Gn 4,1-9), passamos pela história de José do Egito e seus irmãos (Gn 37-50), de Rute e sua sogra, Noemi (Rt), de Paulo, Filêmon e Onésimo (Fm), para chegar aos dois filhos do pai misericordioso (Lc 15,11-32) e às marcantes expressões de Jesus: “já não vos chamo servos, mas amigos” (Jo 15,15) e “vós sois todos irmãos e irmãs” (Mt 23,8).

Também o testemunho dos santos nos ajudou. Quantos santos fizeram da amizade o caminho para a santidade! Gregório Nazianzeno e Basílio de Cesareia, São João Crisóstomo e a diaconisa Olímpia, São Bento e Santa Escolástica, São Francisco e sua gama de irmãos e amigos: Clara, Leão, Ângelo, Rufino, Masseo e Jacoba.

Os papas atuais também nos ajudam no diagnóstico: São João Paulo II, ao nos convidar, no início do terceiro milênio (NMI 43), a uma espiritualidade de comunhão e descrevê-la em detalhes; Bento XVI, na sua mensagem para o 43º Dia Mundial das Comunicações Sociais (24/5/2009), esclarecendo o conceito de amizade e promovendo-a, especialmente entre os jovens; e Francisco, ao nos mostrar como a fraternidade está no coração do Evangelho (EG 177-179).

5. Enfim, a receita e o remédio a ser administrado

O que todos esperamos, ao fim de uma consulta, é o prognóstico. Apresentamos os sintomas. O médico ajudou-nos, com base em suas fontes, a fazer um diagnóstico preciso. Agora, queremos saber como será o tratamento, qual será o remédio a ser administrado e como fazê-lo.

O remédio para nossa alterofobia, causada pelo hiperindividualismo, é a amizade social. Mas o que é amizade social? Do que se trata?

Deixemos que o próprio papa Francisco nos responda: amizade social é “amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço” (FT 1); “uma fraternidade aberta, que permite reconhecer, valorizar e amar todas as pessoas, independentemente da sua proximidade física” (FT 1); “um amor desejoso de abraçar a todos” (FT 3); “comunicar com a vida o amor de Deus, recusando impor doutrinas por meio de uma guerra dialética” (FT 4); “é viver livre do desejo de domínio sobre os outros” (FT 4); “o amor que se estende para além das fronteiras” (FT 99), “a todo ser vivo” (FT 59); “o amor que rompe as cadeias que nos isolam e separam, lançando pontes; o amor que nos permite construir uma grande família na qual todos nós podemos nos sentir em casa; amor que sabe de compaixão e dignidade” (FT 62); nossa “vocação para formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros” (FT 96); “a capacidade diária de alargar meu círculo, chegar àqueles que espontaneamente não sinto como parte do meu mundo de interesses, embora se encontrem perto de mim” (FT 97); “amor que implica algo mais do que uma série de ações benéficas. As ações derivam de uma união que propende cada vez mais para o outro, considerando-o precioso, digno, aprazível e bom, independentemente das aparências físicas ou morais. Amor ao outro por ser quem é impele-nos a procurar o melhor para sua vida. Só cultivando essa forma de nos relacionarmos é que tornaremos possível aquela amizade social que não exclui ninguém e a fraternidade aberta a todos” (FT 94).

Agora, pois, é preciso aplicar esse remédio diariamente em nossa vida pessoal e em nossa convivência comunitária e social, com atitudes concretas, iniciativas reais e empenho comprometido com o fim da indiferença, do ódio, das divisões e guerras, superando resolutamente esse sistema que incha o indivíduo e anula as grandes causas sociais e comunitárias.

Que tal começar indo visitar um vizinho ainda desconhecido? Que tal tomar a iniciativa da reconciliação com um familiar de quem nos afastamos? Que tal celebrar e viver a reconciliação em nossas comunidades? Que tal vencer a omissão e denunciar toda forma de racismo e tantos outros males presentes na nossa sociedade? Que tal conscientizar sobre a coleta nacional da solidariedade, que se realizará no próximo domingo de Ramos, e promovê-la, já que ela socorre centenas de projetos sociais por todo o Brasil?

Conclusão

Com este artigo, você, caro(a) leitor(a), tem um mapa para aprofundar sua reflexão em torno do Texto-base da CF-2024. Aqui indicamos os caminhos nele percorridos.

A organização e preparação dos animadores da CF nos seus vários níveis – comunitário, paroquial, diocesano, regional e nacional – é muito importante, bem como sua divulgação nos mais diversos meios e veículos de comunicação, para que a campanha alcance seu objetivo. Sem verdadeiro envolvimento de todos os atores eclesiais na organização, formação e divulgação, não há CF. Para tanto, todos(as) os(as) batizados(as) – animadores(as) fundamentais da CF – devem unir-se nesse serviço à comunhão da Igreja no Brasil. Todos nós, caminhando juntos, motivaremos nossas comunidades a assumir suas responsabilidades ante a situação de divisão que persiste no nosso país.

É importante encontrar e criar oportunidades para propor a reflexão da CF-2024 nas celebrações comunitárias, nas catequeses, nos conselhos diocesanos, paroquiais e comunitários, nos encontros e reuniões de grupos pastorais e movimentos eclesiais, nas escolas e nas câmaras legislativas. O que importa é insistir no que é a CF em si mesma – um instrumento de comunhão eclesial, de formação das consciências e do comportamento cristão e de edificação de verdadeira fraternidade cristã e amizade social entre os brasileiros.

Referências Bibliográficas

CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et Spes (GS): Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje. In: CONCÍLIO VATICANO II. Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II. Petrópolis: Vozes, 2001.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Texto-base da CF-2023. Brasília, DF: Edições CNBB, 2022.

FRANCISCO, Papa. Evangelii Gaudium (EG): Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. São Paulo: Paulus, 2013.

FRANCISCO, Papa. Fratelli Tutti (FT): Carta Encíclica sobre a fraternidade e a amizade social. Brasília, DF: Edições CNBB, 2020.

JOÃO PAULO II, Papa. Novo Millennio Ineunte (NMI): Carta Apostólica no termo do grande jubileu do ano 2000. São Paulo: Paulus, 2001.

Pe. Jean Poul Hansen*
*pertence ao clero da diocese da Campanha – MG, onde já foi pároco, assessor diocesano da catequese, professor nos seminários e coordenador diocesano de pastoral. É mestre em Teologia Dogmática pela Universidad Pontificia de Salamanca e especialista em Origens do Cristianismo pelo Instituto Agostiniano de Valladolid, ambos na Espanha. Atualmente é o secretário executivo de Campanhas na CNBB. E-mail: [email protected]

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