Roteiro homilético – 12º DOMINGO DO TEMPO COMUM (23/06/2024)

Não tenham medo: o Senhor acalmará a tempestade!

I. INTRODUÇÃO GERAL

Nas leituras deste domingo, a santa mãe Igreja encoraja seus filhos e filhas a confiar  que Cristo está conosco em meio a todas as tempestades desta vida. A presença cuidadosa e amorosa de Deus nos momentos difíceis deve ser, para nós, motivo de celebração e agradecimento. A confiança em que não estamos sozinhos nas adversidades e provações é algo que nos enche de alegria.

A primeira leitura, do livro de Jó, relata o drama humano de inúmeros sofrimentos. Durante todo esse livro, Jó tem sido vítima de um desastre após o outro. Ele perdeu seus filhos e suas posses e foi acometido de grave doença. Em meio a tudo isso, porém, permaneceu fiel a Deus. Sua história toca a finitude e a pequenez do ser humano, que nem sempre consegue compreender a lógica dos planos divinos. No entanto, Deus constantemente cuida da obra da criação.

Na segunda leitura, Paulo reflete sobre as motivações e os princípios que norteiam sua atividade apostólica. Ele partilha com a comunidade de Corinto sua experiência do amor de Cristo. Por isso, sua missão tem como único objetivo tornar esse amor conhecido, para que seus destinatários possam também fazer essa experiência, tornando-se novas criaturas em Cristo.

No texto do Evangelho, em continuidade com o domingo anterior, Jesus, após ensinar a multidão com parábolas, leva seus discípulos para longe das multidões, subindo no barco com eles para atravessar o mar da Galileia. O mar e sua área circundante são os cenários para os ensinamentos e milagres de Jesus nessa parte do Evangelho de Marcos. A leitura deste dia descreve que eles enfrentaram grande tormenta, porém Jesus é o Filho de Deus que tem autoridade e domínio para acalmar a tempestade em alto-mar. Esse é o primeiro de quatro milagres que são apresentados em sequência nesse ponto do Evangelho de Marcos.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Jó 38,1.8-11)

O livro de Jó pertence ao gênero sapiencial do Antigo Testamento. É um clássico desse gênero não só pela sua extraordinária beleza literária, mas também pelo fato de abordar questões existenciais que tocam o íntimo da vida humana, particularmente os sofrimentos. A história do personagem Jó serve de pretexto para introduzir temas cruciais que afligem a humanidade.

A leitura começa pela resposta do Senhor Deus às interrogações de Jó em meio às tempestades que enfrenta em sua vida. A grande interrogação do texto serve para emoldurar a resposta sobre como Deus se manifesta à criatura humana com seu poder de transformar as situações de dor em bênçãos e curas. Depois de se apresentar como o grande arquiteto de toda a obra da criação, ele se revela aquele que tem controle sobre tudo, incluindo o mar. Ao recordar Jó de sua ação criadora sobre o mar, Deus apresenta-se, primeiramente, como divindade intocável na sua transcendência e majestade; em seguida, mostra que tem um plano estável, amadurecido e irrevogável para toda a sua criação. E quem é Jó para pôr em dúvida os desígnios do Criador?

O texto conclui com a reflexão sobre a situação de finitude e limitação do ser humano, que por isso nem sempre consegue ver e perceber o alcance e o sentido último do projeto de Deus para a obra da criação. Em síntese, a leitura nos atesta que somente Deus tem as respostas; ao ser humano resta reconhecer os limites de sua condição de criatura e se pôr nas mãos de Deus, que cuida com carinho da obra da criação.

2. II leitura (2Cor 5,14-17)

O texto que nos é proposto na segunda leitura integra as questões pastorais abordadas por Paulo na sua primeira carta aos Coríntios. O apóstolo retoma a motivação de seu ministério de anunciar o Evangelho de Jesus Cristo. O que o move nesse ministério é sua experiência pessoal de deixar-se absorver pelo amor de Cristo. Por isso, sua ação apostólica só tem um objetivo: levar o amor de Cristo ao conhecimento das pessoas; anunciar que Cristo morreu por todos a fim de vencer as armadilhas do pecado e levar todos a abandonar os esquemas do pecado e do egoísmo.

Com muita franqueza, o apóstolo admite que, no passado, entendeu de forma equivocada a pessoa de Jesus Cristo, enxergando-o de modo humano. Assim, não percebeu sua doação total até a morte de cruz como expressão do amor doado até as últimas consequências. No entanto, seu encontro com o Ressuscitado no caminho de Damasco transformou totalmente sua vida e a compreensão da pessoa de Jesus Cristo. Esse encontro com o Senhor o transformou em nova criatura. Ele agora consegue olhar o mundo e as pessoas na ótica de Cristo. Consegue deixar que Cristo atue na sua pessoa. Por isso, sente-se impelido a partilhar essa experiência de fé tão profunda, que fez dele nova criatura.

3. Evangelho (Mc 4,35-41)

Como é típico no Evangelho de Marcos, os discípulos de Jesus, no trecho deste domingo, fazem pouco para inspirar confiança no leitor, mostrando-se assustados com a tempestade repentina. Marcos observa o contraste entre o terror dos discípulos e a paz de Jesus. O Mestre está dormindo, sem se perturbar com o que está acontecendo ao seu redor.

As palavras dos discípulos são reveladoras. Eles estão suficientemente familiarizados com Jesus para se atreverem a acordá-lo. São palavras cheias de reprovação, questionando seu cuidado por eles. Um leitor atento poderia perguntar-se o que os discípulos esperavam que Jesus fizesse. Eles estão mais perturbados pela tempestade ou pela falta de atenção de Jesus às suas necessidades? Quantos de nós já repreendemos um membro da família ou amigo por não concordar com nossa avaliação da gravidade de uma situação?

O Evangelho oferece evidências do poder e autoridade de Jesus ao mostrá-lo acalmando a tempestade. O poder sobre a natureza era considerado um sinal de divindade – somente Deus acalma tempestades. A repreensão de Jesus à tempestade também ecoa sua repreensão ao expulsar demônios. Em cada situação, seu poder e autoridade são um sinal de sua divindade. De fato, os discípulos ficam se perguntando sobre a identidade de Jesus até o final do relato. Eles veem diante de si um ser humano que age com a autoridade e o poder de Deus. A incerteza dos discípulos sobre a identidade de Jesus é um tema recorrente no Evangelho de Marcos e um constante chamado a reconhecer sua divindade.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

As tempestades apresentadas na primeira leitura e no Evangelho são metáforas das muitas situações difíceis pelas quais passamos em nossa vida. Estamos no barco, as tempestades estão furiosas ao nosso redor, e, como os discípulos, podemos acreditar que Jesus não se importa ou está dormindo. Esperamos estar tão familiarizados com Jesus quanto seus discípulos. Se sentirmos que Jesus está dormindo, estaremos à vontade para acordá-lo e apresentar-lhe nossas necessidades? Jesus não repreende seus discípulos por acordá-lo. Em vez disso, repreende-os por falta de fé, por falta de perspectiva. Quando levamos nossas preocupações a Deus em oração, talvez comecemos a aprender a ver as coisas em sua perspectiva.

Muitas vezes, ao longo do nosso caminho de discipulado, podemos nos sentir sozinhos e confrontados com a oposição e a incompreensão do mundo, como os discípulos no barco com Jesus. Experimentar a impotência e a fragilidade diante de grandes adversidades pode nos angustiar e nos fazer ter o sentimento de que Jesus nos abandonou. O Evangelho desta liturgia nos assegura que Jesus nunca fica de fora do barco dos discípulos. Ele está sempre embarcando conosco nas aventuras da missão, para nos dar segurança e paz. Nos momentos de crise, de desânimo e medo, somos desafiados a descobrir como ele está presente em nossa vida e como cuida de nós.

Ir. Izabel Patuzzo, pime*
*pertence à Congregação Missionárias da Imaculada. Mestre em Aconselhamento Social pela South Australian University e em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Licenciada em Filosofia e Teologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção. Doutora em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. E-mail: [email protected]

Fonte: Vida Pastoral – Paulus
Fonte-Imagem: Diocese de Crato

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