Roteiro homilético – 26° Domingo do Tempo Comum (1/10/2023)

Feliz é quem diz “sim” a Deus

I. INTRODUÇÃO GERAL

A liturgia deste domingo nos convida a olhar para os desígnios de Deus e confiar em sua vontade. A primeira leitura nos convida a reconhecer que os planos divinos correspondem a uma realidade de caminho reto, aberto para todo ser humano trilhar, a fim de se encontrar com a felicidade eterna, o próprio Deus. Na segunda leitura, observamos a comunidade cristã sendo exortada a vivenciar os mesmos sentimentos de Cristo (Fl 2,5). Cristo é o Filho amado, que não fez de sua comunhão com Deus um privilégio, mas ofereceu-se a si mesmo na cruz para a salvação do gênero humano. No Evangelho, somos convidados a olhar para o filho que, mesmo dizendo “não” ao convite do pai, se arrepende e muda seu pensamento, aderindo de forma efetiva e afetiva ao projeto do Reino de Deus.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Ez 18,25-28)

Ezequiel é um profeta que vive movido pelo espírito do Senhor. Ele é guardião e porta-voz da aliança estabelecida por Deus com o povo, desde Abraão até Moisés, chegando até o seu tempo. Guardar a aliança – que pode ser comparada aos caminhos de Deus – é indispensável para esse profeta.

Os planos de Deus são comparados por Ezequiel a caminhos. Caminho é sempre a realidade por nós percorrida em direção a algo ou alguém. A profecia acusa aqueles que são considerados insensatos por Deus de dizer que os caminhos do Senhor não são retos. Entretanto, o próprio Deus, em resposta, afirma, convocando seu povo: “Ouvi, ó casa de Israel: é o meu caminho que não é reto, ou são vossos caminhos que não são retos?”

O texto em questão está situado no grande bloco sobre o castigo de Jerusalém. Precede a passagem deste domingo o capítulo 15, no qual o profeta fala sobre Jerusalém, uma vinha inútil, esposa infiel, uma realidade pior que Samaria e Sodoma (Ez 16). No capítulo 17, o profeta utiliza- se da alegoria do cedro para falar sobre o monarca infiel à frente da casa de Judá. E então, no capítulo 18, o profeta coloca-se pessoalmente na trama, dizendo, já no v. 1: “Veio a mim a Palavra do Senhor: ‘Que provérbio é este que andais repetindo na terra de Israel: Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos ficaram embotados?’” O profeta, de sua parte, propõe-se decididamente a não mais repetir esse provérbio, pois, nas palavras do Senhor: “todas as vidas me pertencem. Tanto a vida do pai como a vida do filho me pertencem. Quem pecar é que morrerá” (Ez 18,4).

Ezequiel está decidido a combater a falsa ideia de castigo, que consolidou a imagem de um Deus castigador. Na verdade, o AT traz essa abordagem sobre o castigo porque era a única forma de entender as consequências do pecado, a corresponsabilidade sobre tudo aquilo que a pessoa decide realizar. Para toda causa há consequências. Desse modo, entendia-se que quem pecasse contra Deus ou contra alguém era merecedor de castigo, quando a verdade é que todo aquele que peca sofre as consequências de seu pecado, seja durante a vida, seja no juízo escatológico de Deus. Essa noção de causa e consequência pode ser vista no v. 26, central desse texto. Quando um ímpio se arrepende, o profeta diz: ele “conservará sua própria vida”. Assim, a noção de pecado é sempre destrutiva. O pecado nos arrasta para a animalização, para a não noção de consciência. O v. 28 conclui enfaticamente: “Reconsiderando e arrependendo-se de todos os crimes que cometeu, ele certamente viverá, não morrerá”.

2. II leitura (Fl 2,1-11)

Na passagem, encontramos duas seções: uma pequena seção narrativa (v. 1-5) e, em seguida, um hino (v. 6-11), bastante conhecido de todos, sobre a kenose do Filho, Jesus Cristo: seu esvaziamento da condição divina, quando de sua encarnação na condição humana. Na parte narrativa (v. 1-5), Paulo convida a comunidade a olhar para Cristo e ter, a partir de então, os mesmos sentimentos de Cristo (v. 5). Este versículo corresponde ao clímax da narrativa. O conjunto constitui uma espécie de interrogação sobre o conforto espiritual, a consolação e o amor a partir de Cristo. O apóstolo convida o povo de Filipos a completar sua alegria, pedindo-lhes que se mantenham unidos, conservando os ensinamentos que ele dirigiu à comunidade. Ele é o mestre espiritual dos filipenses. Segue admoestando-os a viver a vida cristã, plantada na comunidade com a semente do Evangelho, que caiu no coração dos cristãos daquela Igreja particular.

A segunda parte (v. 6-11) consiste no hino acerca da kenose filial de Jesus. Ele, existindo em forma divina, não fez do seu ser igual a Deus uma usurpação, um prêmio, um privilégio, mas esvaziou-se a si mesmo, fazendo-se homem, pobre, e tendo como fim a morte de cruz, a humilhação total (v. 8). Por isso, Deus o exaltou acima de todos (v. 9), concedendo-lhe um nome acima de outros nomes.

Tal cristologia de Paulo na carta aos Filipenses, em forma de hino, constitui um convite a todo cristão a olhar para Cristo e ver nele o esvaziamento de Deus, a presença onipotente de Deus, que se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14). O fazer-se um de nós permitiu a Cristo experimentar nossas dores, exceto o pecado, e abrir-nos o caminho irrestrito para Deus como Pontífice Eterno, que nos chama à comunhão definitiva com o Pai.

3. Evangelho (Mt 21,28-32)

Logo após a narrativa da purificação do templo (Mt 21,12-16), em Jerusalém, e a da maldição da figueira, símbolo da religião estéril de Israel (Mt 21,18-22), Jesus volta ao templo (Mt 21,23) e lá começa a ensinar. É nesse conjunto, conhecido como didaskalia (o ensino de Jesus nos sinóticos) em Jerusalém, que se encontra a narrativa deste domingo.

No episódio, Jesus conta a parábola dos dois filhos. Um pai tinha dois filhos e se dirigiu ao primeiro, dizendo-lhe: “Filho, vai trabalhar na minha vinha!” Há, certamente, uma conexão estreita entre a vinha nessa parábola e a de Mt 20,2, dos trabalhadores contratados para o serviço na vinha. O Reino pode ser comparado a uma vinha, como era conhecido o povo de Israel, que deveria formar um reino, uma vinha, para produzir bons e saborosos frutos. Cada ser humano é convidado a participar da vinha, do cultivo diuturno dessa realidade que é plantada com as mãos, símbolos da construção, da sinergia de todos e todas.

No Evangelho proposto pela Igreja neste domingo, a resposta do primeiro filho foi: “Não quero”. No entanto, ele depois se arrependeu e, compreendendo sua importante participação no cultivo da vinha, atendeu o seu pai. Este continuou e se dirigiu ao segundo filho, dizendo-lhe a mesma coisa (v. 30). Esse filho respondeu: “Sim, senhor, eu vou”; mas não foi. Na parábola, o v. 31 faz então uma interrogação: “Qual dos dois fez a vontade do pai?” Os sumos sacerdotes e os anciãos responderam: “O primeiro”. Então Jesus lhes disse: “Em verdade vos digo que os publicanos e as prostitutas vão entrar antes de vós no Reino de Deus”. Com efeito, estes são comparados por Jesus ao filho que disse “não” aparentemente, mas depois cumpriu o mandato do pai. Do mesmo modo, seus interlocutores, os sumos sacerdotes e anciãos, podem se comparar ao filho que disse “sim” prontamente, mas não o pôs em prática.

No v. 32, Jesus propõe a resposta à interrogação do versículo anterior, dizendo que seu predecessor, João, veio num caminho de justiça e não acreditaram nele, porém os publicanos e as prostitutas creram – eles que eram considerados os piores na sociedade. Jesus conclui enfática e decididamente: “Vós, no entanto, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crerdes nele”. Se não creram no Batista, é pouco provável que crerão em Jesus.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Evidencia-se, nas leituras deste domingo, um fio condutor: o chamado ao ser humano crente a realizar a vontade de Deus, acreditando sempre na bondade do Criador, que não nos criou para a infelicidade, mas para a alegria, neste mundo e no mundo vindouro, de seu Reino. Jesus Cristo, o Filho de Deus, tornando-se homem, não fazendo do seu ser igual a Deus uma usurpação, abriu o caminho de santificação para todos nós, que nele cremos e por ele dizemos “Abbá”, Pai. Contudo, por um lado, dizer “sim” a Deus não é tarefa fácil e simples, pois exige abdicação de nossos projetos pessoais e mesquinhos; por outro, dizer “não” ao seu projeto é sair do caminho que nos leva à felicidade eterna, à glória de contemplarmos a Deus face a face.

Junior Vasconcelos do Amaral*
*Pe. Junior Vasconcelos do Amaral é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje – Belo Horizonte), realizou parte de seu doutorado na modalidade “sanduíche”, estudando Narratologia Bíblica na Université Catholique de Louvain (Bélgica). É professor de Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas e publicou vários artigos sobre o Evangelho de Marcos e a paixão de Jesus em perspectiva narratológica. E-mail: [email protected]

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