Roteiro homilético – 4º domingo da Páscoa (30/04/2023)

 

Jesus, a porta de pastores e ovelhas

I. INTRODUÇÃO GERAL

O 4º domingo da Páscoa é conhecido, na pastoral, como o domingo do Bom Pastor. A oração do dia é inspirada por esse tema (a fraqueza/fragilidade do rebanho e a fortaleza do Pastor). Porém, desde a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, o conjunto literário do “Bom Pastor”, no Evangelho de João, foi repartido pelos três anos do ciclo, A, B e C. Neste Ano A, a leitura do Evangelho não apresenta, propriamente, a parábola do Bom Pastor (Jo 10,11-18, Evangelho do Ano B), e sim o trecho anterior, a parábola da porta e dos pastores (Jo 10,1-10). Essa parábola dá ensejo à exploração de outros temas que não os tradicionais, para que, segundo o desejo do Concílio, seja “ricamente servida” a mesa da Palavra.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (At 2,14a.36-41)

A primeira leitura é a continuação da pregação missionária de Pedro que já ouvimos no domingo anterior. Apresenta-se o querigma cristão e a conversão, o que combina bem com o espírito da Páscoa como celebração do batismo. Pedro conscientiza os judeus de Jerusalém de que Jesus, rejeitado e morto por eles, foi por Deus constituído Senhor e Cristo (v. 36). Essa pregação provoca o arrependimento (metanoia) no coração dos ouvintes: convertem-se e aderem ao círculo dos discípulos (v. 37-41). O povo de Israel é agora obrigado a optar, e não só Israel, mas também os que o Senhor chamou “de longe”, os não israelitas (v. 39; cf. Is 57,19). Parte da população de Jerusalém se converte, então, àquilo que Pedro anunciou. Essa conversão pode reter, hoje, nossa atenção. É o protótipo da adesão à Igreja em todos os tempos. Nós estamos acostumados a nascer já batizados, por assim dizer. Isso, contudo, não quer dizer que nos tenhamos convertido para aderir a Cristo na sua Igreja. Pensemos naquela multidão que, pouco antes, desconhecia ou até desprezava o caminho e a atitude de Jesus de Nazaré e, ativa ou passivamente, havia concordado com sua crucifixão. Agora que Pedro, pela força do Espírito, lhes mostra que essa vida (de Jesus) foi certa e por Deus coroada, eles deixam acontecer neles próprios a verdadeira metanoia, a “revirada” do coração. Em virtude daquilo que lhes foi pregado a respeito do Cristo, mudam sua maneira de ver, sua escala de valores. Essa metanoia consiste em passar pela porta que é Cristo, como diz o Evangelho, em repudiar ladrões e assaltantes, que se apresentam sem passar por ele. Consiste em não aderir a nada que não seja conforme Cristo, marcado por sua vida e situado no seu caminho. Será que nós fizemos essa conversão?

2. II leitura (1Pd 2,20b-25)

Pedro ensina os que vivem na condição de escravo ou servo (1Pd 2,18) a trilhar os passos de Jesus Cristo pastor. Assemelhado ao Servo padecente de Deus (Is 52-53), Cristo deu, no seu sofrer, o exemplo da paciência. A imagem das ovelhas perdidas, no v. 25, corresponde à imagem do Pastor, ao qual o rebanho se confia pelo batismo. Ele nos abre o caminho certo: não o da violência opressora, mas o da justiça que, para se provar verdadeira, não se recusa a sofrer.

3. Evangelho (Jo 10,1-10)

O Evangelho é a parábola da porta do rebanho e dos pastores. No contexto anterior, na história do cego (Jo 9), os fariseus mostraram ser os verdadeiros cegos. Eles deveriam ser os pastores de Israel, mas não o são. Em continuidade direta com esse episódio – pois não há nenhuma nova indicação de cenário –, Jo 10 mostra quem não é e quem é o verdadeiro pastor. Os v. 1-5 narram uma parábola: a cena campestre do redil comunitário, onde entram e saem os pastores e as ovelhas, mas onde também entram, por vias escusas, os assaltantes, para roubar e matar. As autoridades judaicas não entendem a parábola (v. 6), pois só entende quem crê em Cristo. Em seguida, nos v. 7-18, a parábola é explicada em dois sentidos: Jesus é a porta (v. 7-10), Jesus é o pastor (v. 11-18). No trecho lido neste domingo, é apresentada a parábola introdutória e a primeira explicação: Jesus Cristo é a porta. Por ele entram os pastores verdadeiros, por ele são conduzidas as ovelhas até os prados onde encontrarão vida. Antes dele, vieram pessoas que entravam e saíam, não pela porta, mas por outro lugar: eram assaltantes, que conduziam as ovelhas para a perdição, para tirar-lhes a vida. Pouco importa quem sejam esses assaltantes – Jesus parece pensar nos mestres judeus de seu tempo –, não os devemos seguir. O que importa é a mensagem positiva: que passemos pela porta que é Jesus Cristo. Só o caminho que passa por ele é válido. Essa porta se situa, portanto, na comunidade dos fiéis a Cristo. Na comunidade que representa o Cristo, depois da ressurreição, encontramos o que nos serve para sempre; teremos o mesmo acesso ao Pai que os apóstolos encontraram na pessoa de Jesus (cf. Jo 14,6-9). Jesus, com sua comunidade, é a porta que dá acesso ao Pai. Ele dá acesso ao caminho da salvação tanto aos pastores, para entrarem, quanto aos rebanhos, para saírem rumo às pastagens. Onde há vida, é por Cristo que chegamos a ela (cf. Jo 14,6). O prefácio da Páscoa II (Cristo, nosso guia para a vida nova) e a oração final (proteção e “prados eternos” para o rebanho) dão continuidade a esse tema.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

O tempo pascal é tempo de reflexão sobre a realidade de nosso batismo e de nossa fé. Ora, nosso batismo não é real sem metanoia, sem mudança de caminho, para conscientemente passarmos por Cristo. O batismo por conveniência não tem nada a ver com a conversão implicada no batismo verdadeiro.

Conversão como reconhecimento do que está errado e adesão a Cristo como escolha do caminho certo, eis o que nos propõe a liturgia deste dia. Mas, apesar de certa austeridade nessas considerações, temos também o testemunho da gratificação vital que essa conversão a Cristo nos traz. No contexto em que vivemos, podemos, porém, fazer uma pergunta: a salvação vem só por Cristo?

A parábola e sua primeira explicação (Jesus, a porta) nos ensinam que pastor, mesmo, é só quem passa através de Jesus e faz o rebanho passar por ele. O sentido fundamental da pastoral é ir às pessoas por Cristo e conduzi-las, através dele, ao verdadeiro bem. As maneiras podem ser muitas: antigamente, talvez, usavam-se modos mais paternalistas; em nossos dias, modos mais participativos. Seja como for, pode-se chamar de pastoral uma mera ação social ou política? Por mais importante que seja, semelhante ação ainda não é, de per si, ação pastoral cristã. Para ser pastoral cristã, a atuação precisa ser orientada pelo projeto de Cristo, que ele nos revelou, dando sua vida por nós.

Nessa ótica, os pastores devem ir aos fiéis (não aguardá-los de braços cruzados), através de Cristo (não através de mera cultura ou ideologia), para conduzi-los a Deus (não apenas à instituição que é a Igreja), fazendo-os passar por Cristo, ou seja, exigindo adesão à prática de Cristo. Os fiéis devem discernir se seus pastores não são “ladrões e assaltantes”, e o critério para discernir é este: se chegam através de Cristo e fazem passar os fiéis por ele.

A julgar pelas palavras do Novo Testamento, parece que toda a salvação passa por Cristo. Entretanto, isso deve ser entendido num sentido inclusivo, não exclusivo. Todo caminho que verdadeiramente conduz a Deus, em qualquer religião e na vida de “todos aqueles que procuram de coração sincero” (Oração Eucarística IV), passa, de fato, pela porta que é Jesus. Dirigido, provavelmente, a pessoas que já aderiram à fé em Jesus, o Evangelho de João ensina: não precisam procurar a salvação fora desse caminho. Isso vale ser repetido para os cristãos de nosso tempo. Por outro lado, não é preciso que todos confessem o Cristo explicitamente para encontrar a salvação. Basta que, nas opções da vida, optem pela prática que foi, de fato, a de Cristo. Agir como Cristo é a salvação. E é a isso que a pastoral deve conduzir.

Johan Konings*
*nasceu na Bélgica e radicou-se no Brasil em 1972. Faleceu aos 80 anos, no dia 21 de maio de 2022, em Belo Horizonte-MG. Doutor em Teologia e mestre em Filosofia e em Filologia Bíblica pela Universidade Católica de Lovaina. Foi professor de Exegese Bíblica na Faje, em Belo Horizonte. Dedicou-se principalmente aos seguintes assuntos: Bíblia – Antigo e Novo Testamento (tradução), Evangelhos (especialmente o de João) e hermenêutica bíblica. Entre outras obras, publicou: Descobrir a Bíblia a partir da liturgia; A Palavra se fez livro; Liturgia dominical: mistério de Cristo e formação dos fiéis – anos A-B-C; Ser cristão; Evangelho segundo João: amor e fidelidade; A Bíblia nas suas origens e hoje; Sinopse dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas e da “Fonte Q”. Nossa homenagem e gratidão ao Pe. Konings, que por diversas vezes colaborou em Vida Pastoral.

 

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