Roteiro homilético – Corpo e Sangue de Cristo (30/05/2024)

Eucaristia: fonte de comunhão com Deus e com os irmãos

I. INTRODUÇÃO GERAL

Hoje celebramos a solenidade de Corpus Christi. Nesta liturgia, celebramos três festas em uma: a festa do sacrifício de Cristo, a festa do sacramento da Eucaristia e a festa da real presença de Jesus. A festa do Corpo e Sangue do Senhor, em nossa fé católica, ecoa a Quinta-feira Santa, quando Jesus instituiu a Eucaristia. A Igreja nos oferece mais uma oportunidade para recordar esse evento salvífico, por meio do qual Jesus Cristo dá sua vida por nós.

A solenidade de Corpus Christi foi estabelecida com três propósitos: como Igreja universal, dar graças e louvores pela constante presença de Cristo na Eucaristia; instruir o povo de Deus acerca do mistério de fé e devoção que cerca a Eucaristia; ensinar-nos a apreciar e usufruir o grande dom que é a santa Eucaristia na vida da Igreja e de cada batizado.

As três leituras deste dia nos ajudam a refletir sobre o significado da Eucaristia. A Eucaristia é um sacrifício e um sacramento. A primeira leitura recorda que o povo no deserto renovou a Aliança com Deus mediante a ação de Moisés, que, como mediador entre Deus e seu povo, ofereceu um animal em sacrifício, para expressar que os compromissos com a palavra e com o ritual são inseparáveis. A segunda leitura nos diz que a vida oferecida por Jesus em sacrifício lhe dá o direito de acesso ao santuário espiritual. Já o texto do Evangelho segundo Marcos nos apresenta os preparativos da última ceia pascal de Jesus com seus discípulos, inserida no contexto de sua paixão, morte e ressurreição para a salvação da humanidade.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Ex 24,3-8)

A primeira leitura, do livro do Êxodo, fala-nos sobre a aliança entre Deus e o povo de Israel. Tendo falhado em cumprir as promessas feitas na época em que Deus o libertou da escravidão no Egito, Israel jura que deseja renovar seu relacionamento com ele, exprimindo isso num compromisso coletivo: “Faremos tudo o que o Senhor nos disse” (v. 3). Essa aliança foi selada com o sangue de animais oferecidos em sacrifício. Observa-se nesse texto que Moisés segue um ritual muito específico: primeiramente proclama a Lei de Deus para o povo e a explica, enquanto eles ouviam; em atitude de escuta, o povo renova e professa sua fé no Deus único, como nos recorda o autor sagrado: “Tomando o livro da aliança, ele o leu em voz alta para o povo, que respondeu: ‘Tudo o que o Senhor disse, nós obedeceremos e faremos’” (v. 7). Em seguida, o povo se dirigiu ao altar do sacrifício, onde compartilhou a vítima sacrifical como alimento. Esse sacrifício de Moisés foi um sacrifício de expiação, ou seja, para o perdão dos pecados do povo, para sua reconciliação com Deus. Esse ritual exigia fidelidade por parte do povo às promessas que estava fazendo a Deus. Ele seria o Deus deles, e eles seriam seu povo. Não é apenas uma simples aliança; é uma aliança que envolve sangue, por isso deve ser tomada com seriedade e fidelidade.

Nessa narrativa da ratificação da Aliança, Moisés e as lideranças são chamados a subir à montanha para se aproximar de Deus e realizar esse ritual, que simboliza a comunhão com Deus. Nessa ocasião marcante, o Senhor garante a proteção de todos aqueles que seguem seu caminho e se dispõem ao seu serviço. No entanto, no decorrer da história, Israel muitas vezes não foi capaz de cumprir sua parte nesse compromisso. Foi infiel, prestando culto a outros deuses. De sua parte, Deus sempre se mostrou disposto a renovar a Aliança com seu povo e, em Jesus Cristo, ratifica-a de modo definitivo.

2. II leitura (Hb 9,11-15)

A segunda leitura, da carta aos Hebreus, dá continuidade ao tema da liturgia, explicando ainda mais o aspecto sacrifical da Eucaristia. Como, na Antiga Aliança, o povo escolhido nem sempre fora fiel, Deus dá a seu povo outra chance, em Jesus Cristo. Na prática religiosa judaica, havia a festa da Expiação, também chamada de dia da Expiação no livro do Levítico (Lv 23,27-28). Nessa festa solene, o sumo sacerdote realizava o ritual de expiação, entrando no Santo dos Santos para renovar a aliança do povo com Deus. Ele apresentava o povo diante de Deus, pedindo pelo perdão deles. Isso simbolizava a necessidade de a humanidade ser purificada do pecado. Esse ritual era realizado todos os anos.

O texto de Hebreus retoma o sentido dessa festa, mas sob perspectiva cristã. Afirma que somente quando Jesus veio, para fazer o sacrifício de uma vez por todas, é que cessou a necessidade de cerimônias de purificação. Ele se ofereceu a si mesmo como sacrifício, por isso não precisa, como os sumos sacerdotes, oferecer sacrifícios diários pelos próprios pecados e depois pelos pecados do povo. Em um único sacrifício, fez isso de uma vez por todas, entregando-se livremente na cruz. A carta aos Hebreus afirma ainda: “Ele entrou de uma vez por todas no santuário, não com o sangue de bodes e bezerros, mas com seu próprio sangue, obtendo assim a redenção eterna” (v. 12). O sangue de touros e bodes só poderia expiar pecados se o ritual fosse realizado continuamente ano após ano, enquanto o sacrifício de Cristo foi suficiente para expiar os pecados das pessoas de todos os tempos. Jesus usou seu próprio sangue e declarou que tudo tinha sido consumado. Sua fidelidade ao Pai lhe deu toda autoridade para sentar-se à sua direita, e nenhum outro sacrifício adicional foi necessário.

3. Evangelho (Mc 14,12-16.22-26)

O relato da última ceia de Jesus com seus discípulos segundo Marcos tem como pano de fundo a tradição judaica de, no primeiro dia de Ázimos, antes do pôr do sol, imolar o cordeiro para a Páscoa. Todas as indicações de Jesus aos seus discípulos sobre como deviam preparar a ceia, segundo o evangelista Marcos, são sinais extraordinários de sua presciência acerca de seu sacrifício na cruz. Da parte de Jesus, tudo se desenvolve com pleno conhecimento prévio de sua submissão ao Pai e sua entrega voluntária ao sacrifício na cruz.

Após recitar a bênção, os discípulos são convidados a compartilhar da morte sacrifical de Jesus ao pronunciar as palavras: “Tomai, isto é o meu corpo” (v. 22). Oferece o cálice e ainda repete: “Este é o meu sangue, derramado por muitos” (v. 24). Seu sangue será derramado por todos aqueles que estão prontos para fazer sacrifícios. O sangue da Aliança é uma alusão à renovação do compromisso com Deus, selado na montanha por Moisés e pelos líderes, conforme a primeira leitura. O “derramado por muitos” está em sintonia com as promessas do cântico do Servo no livro do profeta Isaías (Is 53,12). Jesus faz alusões ao Antigo Testamento para revelar que sua entrega na cruz é um sacrifício para a redenção de muitos. Por isso, sua última ceia não é um evento isolado da história da salvação, mas está em continuidade com a fidelidade de Deus, que oferece a salvação a todas as pessoas.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Hoje a Igreja celebra a solenidade do Corpo e Sangue do Senhor. Nessa festa, fazemos memória do mistério de Jesus Cristo livremente aceitar sofrer por nós, estar disposto a derramar seu sangue por nós. Todas as vezes que celebramos a Eucaristia, recordamos que Jesus morreu e derramou seu sangue por nós, e agora ele continua vivo e presente para sempre em nosso meio. Assim, tornou-se para nós um sacramento de unidade. Jesus está presente entre nós aqui e agora, e em todos os lugares onde o celebramos na Eucaristia. Na santa Eucaristia, sob as aparências de pão e vinho, o Senhor Jesus Cristo está contido, é oferecido e recebido. O Cristo inteiro está real, verdadeira e substancialmente presente na santa Eucaristia. Isso significa que na Eucaristia encontramos a pessoa de Jesus Cristo.

A primeira leitura nos recorda que o povo de Deus muitas vezes foi infiel à Aliança. Falhou em cumprir sua própria parte do acordo. Isso também ocorre quando comungamos o corpo e o sangue do Senhor, mas entramos em acordo com as práticas de pessoas que não estão em comunhão com Deus, que não comungam das propostas de Jesus Cristo.

Para o cristão, comungar é ser alimentado pela vida de Jesus e, assim, fortalecido pela sua presença na Eucaristia, ser capaz de amar como ele ensinou. Comungamos na Eucaristia para sermos discípulos dele. Esta solenidade leva-nos a interrogar: a Eucaristia é fonte de minha doação a Deus e aos irmãos? A Eucaristia é de fato vital para mim? Adorar Jesus presente na Eucaristia me faz uma pessoa mais fiel aos meus compromissos com Deus e com os outros?

A instituição do sacramento da Eucaristia é um grande dom que Jesus nos deixou. A Palavra e a Eucaristia são dois elementos essenciais do ritual cristão, desde o início do cristianismo. Se o alimentar-se da Palavra e da Eucaristia é vital para a vida de todas as pessoas que seguem o caminho do discipulado de Jesus, aproximamo-nos de Cristo Palavra e Eucaristia com a devida intensidade?

Ir. Izabel Patuzzo, pime*
*pertence à Congregação Missionárias da Imaculada. Mestre em Aconselhamento Social pela South Australian University e em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Licenciada em Filosofia e Teologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção. Doutora em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. E-mail: [email protected]
Fonte: Vida Pastoral – Paulus

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