Roteiros Homiléticos – 1º DOMINGO DA QUARESMA – (18/02/2024)

“Convertei-vos e crede no Evangelho”

I. INTRODUÇÃO GERAL

A Quaresma é um tempo propício para nossa conversão. Na primeira leitura, o narrador bíblico nos faz recordar o dilúvio como oportunidade para Deus transformar a humanidade com sua Aliança. No Evangelho, Jesus vence as tentações: o Filho de Deus está acompanhado pelo Espírito Santo, que o impulsiona a ir pela Galileia proclamando o Evangelho e salvando a todos. Na segunda leitura, Pedro recorda que o dilúvio é o “batismo antecipado” por Deus, uma forma de Ele abrir a consciência dos homens e mulheres para a salvação.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Gn 9,8-15)

A primeira leitura propõe à Igreja meditar a recriação da parte de Deus. Em sua infinita bondade e compaixão, ele estabelece uma aliança (em hebraico, berit), um pacto com Noé. Este é chamado por Deus a construir uma arca e, por meio dela, salvar das águas sua família e todas as criaturas. Assim, Noé é obediente a Deus e faz tudo o que ele ordena. Se em Gênesis, por um lado, vemos a criação e o pecado que entra no mundo, por outro, vemos a recriação e a aliança sendo cumprida por parte de Deus, por causa da obediência humana.

O v. 9 trata exatamente da berit, o pacto ou aliança, estabelecida por Deus com Noé e sua descendência. De Adão e Eva até Noé e sua família, a humanidade é descendente. Se nessa descendência encontramos as imperfeições humanas, há também nela a capacidade de abrir-se à aliança com Deus. Assim, o teólogo jesuíta Pe. Karl Rahner diz que o ser humano é capax Dei, ou seja, “capaz de Deus”, aberto à transcendência e ao transcendental, que é Deus mesmo. Deus se revela ao ser humano e se comunica com ele (Dei Verbum, n. 2).

Os v. 9-11 estabelecem os acordos, promessas e cláusulas da aliança: nenhuma criatura será exterminada, não haverá outro dilúvio. Há ainda, nos v. 13-14, um sinal estabelecido pelo Criador: um arco nas nuvens. E, no v. 15, o Criador reafirma sua aliança, ratificando que já não haverá dilúvio.

2. II leitura (1Pd 3,18-22)

Em leitura e exegese tipológicas (em grego, typós), Pedro alude à arca de Noé, entendendo-a à luz do sacramento do batismo. “À arca corresponde o batismo, que hoje é a vossa salvação” (v. 21). Pelo batismo, somos mergulhados em Cristo, morremos para o pecado e ressurgimos para uma vida nova. Pedro lembra que Cristo morreu por nossos pecados, o justo pelos injustos (v. 18). Ele é nosso justificador. Essa teologia de Pedro é encontrada também na carta de Paulo aos Romanos (Rm 5,1).

Nesse trecho (v. 21), há um sentido novo para compreender o batismo, não como mero rito de passagem, e sim como realidade que abre a consciência humana, a fim de que esta seja recriada e deixe a condição de pecado: “mas é um pedido a Deus para obter uma boa consciência, em virtude da ressurreição de Jesus Cristo”. O v. 22 lembra-nos que Cristo está à direita do Pai. De certa maneira, essa leitura nos ajuda a compreender a teologia da primeira leitura, na qual o dilúvio não é apenas sinal de morte e condenação, mas também de recriação, de recomeço para a nova humanidade que estabelece com Deus uma nova aliança.

3. Evangelho (Mc 1,12-15)

O Evangelho deste domingo pode ser dividido em duas partes principais. Os v. 12-13 apresentam Jesus sendo levado para o deserto a fim de ser tentado por satanás durante quarenta dias; já os v. 14-15 mostram que, após a prisão de João, Jesus inicia sua missão na Galileia: anunciar o Evangelho de Deus.

O número quarenta é símbolo de transformação, de uma geração, de uma vida. Por isso dizem que “a vida começa aos 40”. A quarentena é necessária para que uma doença viral possa deixar o organismo humano. Sobre isso, tivemos triste experiência global com a pandemia da Covid-19. Quarenta foi a quantidade de anos que o povo de Deus peregrinou pelo deserto até chegar à Terra da Promessa. A Quaresma é tempo, assim, de acompanharmos os passos de Jesus, que vence as tentações e assume sua consciência, sempre crescente, de Filho de Deus.

É o Espírito que conduz Jesus (do grego, ekballein – literalmente, “jogado”), para dizer que o Filho de Deus não tinha outra opção senão assumir o projeto querido por seu Pai. É o Espírito que o conduz nesse tempo; por isso, mesmo em um deserto, Jesus não está só, mas, pela oração, conecta-se a Deus e vive em profunda comunhão com ele. Jesus, em Marcos, não sofre três tentações, como em Mateus e Lucas. Isso significa que as tentações, para a tradição marcana, serão para toda a vida do Filho de Deus, e, por isso, ele deverá vencê-las. Os anjos o serviam (v. 13), embora convivesse entre os animais selvagens, símbolo das forças malignas que o tentavam. O anjo, entendido como mensageiro, é, nas Escrituras, sempre sinal do próprio Deus.

Os v. 14-15 informam que, após a prisão de João, o Batista, Jesus foi para a Galileia. Lá, começa sua missão salvífica como novo Messias. A missão de Jesus é uma Nova Aliança, definitiva e plena. Por isso, ele vai, paulatina e progressivamente, salvando as pessoas todas que encontra ao longo do caminho e com as quais se relaciona. Jesus tem compaixão das pessoas, toca-as, conversa e alimenta-se com elas, vive seu cotidiano e as salva, liberta-as de seus pecados, cura suas limitações físicas e espirituais.

Ir pela Galileia “pregando o Evangelho de Deus” significa, para Jesus, viver a Boa-nova da salvação e anunciá-la para todos, sem excluir ninguém, sobretudo os pecadores. Por isso, Jesus diz: “Convertei-vos (em grego, metanoiete) e crede (em grego, pisteúete) no Evangelho”. O verbo metanoeite vem de metanoia, que significa mudar a direção do pensamento, ultrapassar o mesmo pensamento pecaminoso de sempre e voltar o coração para Deus. É isso que Jesus deseja a todos nós neste tempo quaresmal.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Levar a comunidade cristã a perceber a aliança que Deus estabelece com a humanidade e também com todos nós, hoje, em Jesus. Evidenciar que somos chamados à salvação em Cristo. Propor um itinerário quaresmal pelo qual chegaremos à Páscoa transformados em novas criaturas, sobretudo agindo com amor para com os irmãos e irmãs.

Pe. Junior Vasconcelos do Amaral*
*é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje – BH), realizou parte de seus estudo de doutorado na modalidade “sanduíche”, cursando Narratologia Bíblica na Université Catholique de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor na PUC-Minas, em BH, e pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. E-mail: [email protected]

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