Roteiro homilético – 23º DOMINGO DO TEMPO COMUM (04/09/2022)

Discernir e optar pelo Reino

I. INTRODUÇÃO GERAL

Os tempos nos pedem discernimento. Nossa vida humana acontece em meio a tantas escolhas e às possíveis consequências dos acertos e erros. Merecemos uma pausa para melhor decidirmos pelo que devemos, de fato, optar verdadeiramente.

A liturgia eucarística é nossa pausa semanal, por vezes diária, para um exercício de silenciar e de (re)fazer as escolhas. As leituras deste domingo nos propõem examinarmos a nós próprios para bem escolhermos o que melhor dá sentido à vida.

Na primeira leitura, lemos um pedido de sabedoria, a qual é dom de Deus para bem viver, e não apenas acúmulo de conceitos abstratos. A segunda leitura narra um pedido de Paulo para a acolhida de um escravo em nova condição, como um irmão. Ela ensina que a fraternidade deve superar as convenções sociais. No Evangelho, Jesus frustra os entusiasmados descompromissados e alerta para a exigência de segui-lo. Ser cristão pede comprometimento existencial e engajamento por um mundo melhor.

Portanto, celebremos com disposição para mudarmos para melhor o que for necessário. Deus nos fala para nossa conversão, e não para nosso constrangimento. Em tempos de perversão religiosa que alimenta o ódio, cria divisões, espalha mentiras e difamações, fomenta a violência entre seus seguidores etc., o amor do Senhor nos ilumina e nos capacita para deixarmos o que não convém e aderirmos ao Evangelho.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Sb 9,13-18)

O livro da Sabedoria foi elaborado em um período no qual o povo de Israel estava sob domínio dos gregos e imerso nessa cultura, que valorizava o conhecimento cognitivo e a ciência das coisas. No entanto, Israel não compreendia a sabedoria da mesma maneira que os gregos, como se fosse uma abstração ou se tratasse de conceitos adquiridos. Para o povo bíblico, ela se caracterizava pelo aspecto prático e consistia em agir bem e para o bem.

O trecho da leitura da liturgia apresenta uma parte da prece atribuída a Salomão que pede o dom da sabedoria. Trata-se de uma releitura de 1Rs 3,6-9. O autor reconhece que os planos de Deus são insondáveis, mas o ser humano deve aspirar a compreender esse mistério para melhor viver.

A oração se inicia retratando o limite humano (v. 13). Nem com toda inteligência ou com todo conhecimento, o ser humano se equipara ao conhecimento de Deus, como queriam alguns contemporâneos do autor. O esforço humano por querer saber de todas as coisas é válido, porém convém reconhecer que há muito mais o que não se sabe do que o que realmente se compreende. A realidade ultrapassa nossas possibilidades de conhecimento.

Na segunda parte (v. 16-18), o autor reconhece que, com muito esforço, a pessoa pode conhecer as coisas terrenas e que estão ao alcance humano. Todavia, só com o Espírito Santo (v. 17), a sabedoria dada por Deus às pessoas, será possível aprender as coisas divinas, aproximar-se do mistério e caminhar conforme os desígnios de Deus – algo mais sublime para o ser humano do que possuir um acúmulo de informações.

A súplica de outrora continua válida também para nossos tempos. Muitas pessoas, com seus projetos ambiciosos e com a ganância de ter sempre mais, ignoram os limites de criatura e se iludem, sentindo-se oniscientes. A sabedoria dada por Deus nos ajuda a reconhecer os próprios limites e a olhar além, para o mistério divino, a que ansiamos no mais íntimo.

2. II leitura (Fm 9b-10.12-17)

Apesar de pouco conhecida, a carta a Filêmon é uma preciosidade no tesouro paulino. O texto apresenta um pedido a Filêmon em favor de um escravo chamado Onésimo (Cl 4,9). Este havia fugido para junto de Paulo, que se encontrava na prisão.

Nesse período, Paulo o batizou (o “gerou na fé”) e agora escreve uma carta de recomendação, para que Filêmon o receba de volta, sem castigá-lo ou até matá-lo, como os costumes escravistas permitiam, mas, ao contrário, em nova condição, a de um irmão em Cristo.

De início, Paulo apresenta sem timidez e com objetividade seu assunto (v. 9). Ele se reconhece idoso e prisioneiro e pede por Onésimo, chamando-o de filho (v. 10; 1Cor 4,15). De fato, Onésimo foi convertido por Paulo, enquanto lhe prestava serviço na prisão em Éfeso. Os prisioneiros, naquele tempo, eram sustentados por seus familiares e/ou amigos.

No entanto, Paulo não envia Onésimo de volta como se fosse um objeto de descarte. Ele pede que Filêmon o receba como se fosse seu próprio coração e como se fosse ele próprio (v. 12.17). A presença de Onésimo serviria, para Paulo, como a presença amiga de Filêmon (v. 13). Contudo, é oportuno que essa restituição seja feita de forma espontânea, sem reclamar o direito de proprietário nem pedir indenização por ter o escravo fugido da casa (v. 14).

A nova condição sugerida por Paulo é que o outro seja recebido para sempre como um irmão, pois a fé em Cristo deu a Filêmon e a Onésimo novas compreensões acerca das relações humanas. Enfim, Paulo espera que Onésimo seja bem recebido, como o próprio apóstolo seria em uma visita oportuna (v. 17).

Além de muito afeto, a pequena carta demonstra nova forma de relacionamento, já não na perspectiva das estruturas e condicionamentos sociais, mas sim da fé em Cristo, que nos faz todos irmãos e irmãs uns dos outros, filhos e filhas do mesmo Pai. Assim, a fé nos faz discernir, com novos parâmetros, os laços humanos.

3. Evangelho (Lc 14,25-33)

O Evangelho de Lucas, lido nestes domingos do Tempo Comum, dirige-se a uma comunidade formada majoritariamente por gentios, com membros prósperos que estão repensando dolorosamente suas iniciativas missionárias em um ambiente hostil. O trecho selecionado para a liturgia deste dia apresenta a realidade desafiadora do seguimento de Jesus.

Jesus se encontra diante de uma multidão que o seguia (v. 25). Provavelmente, alguns estavam entusiasmados, achando que Jesus seria um líder pop, como algumas pessoas hoje se sentem. Ele, porém, logo os adverte de que, para segui-lo, a pessoa não pode colocar os próprios interesses em primeiro lugar (pai, mãe, esposa, filhos, parentes, bens). Um discípulo de Jesus deve ser capaz de desprender-se de tudo isso e priorizar a missão de anunciar o Evangelho (v. 26). Tal opção de vida significa tomar a cruz (o caminho de Jesus) e segui-lo, imitando-o no amor a Deus e à humanidade (v. 27).

Em seguida, Jesus cita dois exemplos de prudência e discernimento. O primeiro é o de alguém que quer construir uma torre e, para isso, deve sentar-se, antes de iniciar a construção, a fim de calcular os gastos (v. 28-30). O segundo exemplo é o de um rei que vai guerrear contra outro reino e, antes de partir, deve planejar as estratégias para saber se a quantidade de homens será suficiente para o embate (v. 31-32). Ambos os casos ensinam o mesmo: quem empreende um projeto importante de maneira temerária corre o risco do fracasso, se não examinar antes os meios e as forças para alcançar o objetivo final.

Do mesmo modo, qualquer um que decida seguir Jesus não poderá ser seu discípulo se, antes de partir, não planejar suas condições de renunciar a tudo o que tem para, de modo livre e radical, tomar a cruz do desapego, a cruz da doação da vida pelos outros (v. 33).

Jesus nos convida, por meio desse Evangelho, a sentar e refletir. Aonde queremos chegar com o seguimento de Jesus? O que queremos com esse caminho de vida? Quais forças estamos somando em prol do anúncio do Evangelho?

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Estamos vivendo nova e preocupante situação nas relações entre as pessoas, entre as diferentes denominações religiosas, entre as diferentes ideologias políticas. Há uma prevalência da extrema direita ultraneoliberal, homofóbica, sexista, racista, xenófoba, machista, moralista, antiecológica, negacionista da ciência e das mudanças climáticas.

Infelizmente, algumas organizações “cristãs” conservadoras, de caráter fundamentalista, apoiam essas causas em nome da “doutrina”, situação que se manifesta como a mais grosseira manipulação do cristianismo e como a perversão do sagrado, pois se apoia nos discursos e nas práticas de ódio dos partidos e dos grupos neofascistas de todo o mundo.

A Palavra de Deus convida a um discernimento. A sabedoria de Deus conduz ao mistério e à contemplação do amor, não ao ódio, que se espalha pelas plataformas de mídia e redes de internet. Paulo pede uma acolhida amorosa do próximo, em vez de uma relação desumanizada de senhor e escravo. Enfim, Jesus adverte que seu caminho é de cruz, não importam o sucesso ou os próprios interesses. O Evangelho é a principal urgência!

Marcus Mareano*
*é bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). Bacharel e mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje). Doutor em Teologia Bíblica, com dupla diplomação, pela Faje e pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica (KU Leuven). Professor adjunto de Teologia na PUC-MG, também colabora com disciplinas isoladas em diferentes seminários. Desde 2018, é administrador paroquial da paróquia São João Bosco, em Belo Horizonte-MG. E-mail: [email protected]

Fonte: Revista Vida Pastoral

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