Roteiros Homiléticos – 3º Domingo do Tempo Comum (21/01/2024)

“Segui-me e eu farei de vós pescadores de homens”

I. INTRODUÇÃO GERAL

Jesus nos convida hoje ao seu seguimento. Tornamo-nos seus discípulos e pescadores de homens e mulheres: essa é a missão da Igreja. Na primeira leitura, o profeta Jonas é símbolo de resistência a Deus, mas, seduzido e conduzido por ele, chega a Nínive com a mensagem divina e o apelo à conversão. No Evangelho, Jesus convida ao arrependimento e, anunciando a Boa-nova, chama seus primeiros discípulos – e também a nós – para segui-lo. Paulo, na segunda leitura, faz-nos perceber que o tempo está abreviado, que tudo passa rapidamente e precisamos dar sentido à nossa existência, cooperando com o Reino de Deus.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Jn 3,1-5.10)

Da mesma maneira que chamou Samuel, no domingo passado, Deus chama Jonas, o profeta, na liturgia deste dia. Jonas, do hebraico Yonáh, significa “pomba” ou “mensageiro”. A pomba é um dos símbolos do judaísmo. O profeta Jonas é convidado a levar aos ninivitas a seguinte mensagem: “Ainda quarenta dias, e Nínive será destruída” (v. 5). Nínive era a capital da Assíria e havia se corrompido por seus inúmeros pecados e idolatrias. O profeta é relutante contra Deus e não quer ir até lá; contudo, é vomitado no litoral de Nínive e percorre a pé toda a cidade, até chegar ao rei e dizer sua mensagem. O povo todo se converteu a Deus por meio do anúncio do profeta: “Vendo Deus as suas obras de conversão e que os ninivitas se afastavam do mau caminho, compadeceu-se e suspendeu o mal que tinha ameaçado fazer-lhes, e não o fez” (v. 10).

A índole da atividade profética de Jonas provoca uma comparação: um povo estrangeiro (no caso, os ninivitas) é mais temente a Deus que o próprio Israel, a nação escolhida. Eis a grande ironia com a qual Jonas é incapaz de conviver: o povo judeu, ao qual ele pertence, convive naturalmente com o pecado, com corrupções, e nem sempre é capaz de ouvir a mensagem profética da conversão, da crítica às injustiças sociais e religiosas cometidas pela monarquia e seus súditos. Jonas gostaria que Deus promovesse uma destruição, conforme havia prometido. Contudo, o Senhor é infinitamente misericordioso e perdoa os pecados de seu povo. Já Jonas se mostra um profeta duro de coração e apenas no final da narrativa vai entender a infinita bondade e o amor de Deus.

Jonas, mensageiro de Deus, tinha sido levado de Jope, litoral de Israel, para a Assíria, usando uma embarcação e sendo engolido por um peixe grande. Chegou ao destino de sua missão, convidando todos à conversão. Ele é imagem que antecipa Cristo, pelo qual todos nós somos convidados ao arrependimento e à conversão.

2. II leitura (1Cor 7,29-31)

A chave de interpretação para a perícope paulina de 1Cor 7,29-31 é o versículo 31b: “pois a figura deste mundo passa”. A figura do mundo é sua imagem, eikon, que, de acordo com Paulo, é constituída pela provisoriedade. Tudo, dessa maneira, é provisório e passageiro, como a vida humana sobre a terra. Por isso, o desapego desta vida terrena faz que o ser humano não sofra exageradamente por sua provisoriedade.

Estamos neste mundo e vivemos as vicissitudes próprias da história, entremeadas às nossas virtudes, forças que nos capacitam para a salvação. A salvação é sempre um dom de Deus, e não uma conquista humana, para que o ser humano não se glorie de sua salvação nem seja juiz de seu irmão. Por isso, Paulo, no v. 29, diz que o tempo está abreviado.

3. Evangelho (Mc 1,14-20)

O Evangelho deste domingo reúne duas tradições importantes: a primeira delas, nos v. 14-15, relativa à prisão de João Batista, ao início do ministério de Jesus na Galileia e ao anúncio do Reino de Deus; em seguida, a segunda tradição, nos v. 16-20, cuja cena se situa junto ao mar da Galileia e envolve dois relatos vocacionais, dos quatro primeiros discípulos chamados por Jesus (Simão e André; Tiago e João, os filhos de Zebedeu).

Na primeira seção, a prisão de João é causa para o início do ministério de Jesus. Ele se dirige para a Galileia e anuncia (kerysson) o Evangelho de Deus. O tempo, kairós, abreviou-se, e o Reino de Deus está próximo. Jesus ainda acrescenta: “Convertei-vos (metanoeite, no modo imperativo) e crede (pisteúete) no Evangelho”. Jesus está dizendo que o tempo se abrevia e é preciso, por isso, haver conversão e fé. O Evangelho é o conteúdo do anúncio de Jesus, cuja centralidade está no Reino (basiléia toú Theoú).

Na segunda seção, existem dois relatos vocacionais, ambientados à beira do mar da Galileia. Destacamos o verbo “ver”, quatro vezes presente no texto de Marcos (em 1,16 e 1,19, bem como em 2,14 e 6,34). Esse mesmo verbo aparece 42 vezes ao longo do Novo Testamento e pode ser entendido no sentido de “identificar-se”. Ele é processual; ou seja, não se trata de “ver” como um simples “olhar”, e sim de “perceber” o que está presente no outro. Por isso, nesse processo, há uma relação profunda. Esse verbo aparece também na cena da multiplicação dos pães (em Mc 6) e no v. 34: após ver a grande multidão, Jesus sentiu compaixão (splachinizomai), pois o povo era como ovelhas sem pastor.

Ao ver Simão e André, Jesus os convida: “Vinde após mim (deúte ópiso mou), e eu vos farei pescadores de homens”. O v. 18 afirma que eles “imediatamente deixaram tudo e seguiram Jesus” (ekoloúthesan). O verbo akolouthia, em grego, traduz-se por “acompanhar”, “estar junto de”. O mesmo se passa com Tiago e João, os filhos de Zebedeu.

Tornar-se pescadores de homens é expressão que ressignifica a função da pesca. Pescar homens é sinônimo de salvar vidas humanas com o auxílio das redes do Evangelho, que envolverá a muitos, retirando-os do mar da vida – o mar é sempre símbolo da instabilidade e do medo. A mensagem do Evangelho salva os que estão no mundo e sofrem com suas vicissitudes e instabilidades.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Perceber a correlação entre as leituras: Jonas é um profeta que convida Nínive à conversão e ao arrependimento, enquanto Jesus é o grande profeta de Deus, que inicia seu ministério na Galileia e também convida seu povo ao arrependimento. Levar a comunidade a perceber sua vocação à vida, à santidade e ao amor ao próximo, na pesca de homens e mulheres para Deus. Compreender que a Galileia é símbolo da exclusão e da pobreza e que os pobres constituem a opção preferencial de Jesus em sua ação profético-missionária.

Pe. Junior Vasconcelos do Amaral*

*é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje – BH), realizou parte de seus estudo de doutorado na modalidade “sanduíche”, cursando Narratologia Bíblica na Université Catholique de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor na PUC-Minas, em BH, e pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. E-mail: [email protected]

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